Testemunho: D. Christophe Munzihirwa, um homem de fé e uma testemunha da esperança

Por ocasião do trigésimo aniversário do assassinato de D. Christophe Munzihirwa, SJ, o advogado Jean Mutabesha B. recorda os seus encontros com aquele que foi Arcebispo de Bukavu. Através do olhar do jovem de dezasseis anos que então era, apresenta um testemunho pessoal sobre algumas palavras, gestos e acontecimentos que o marcaram nos últimos meses que precederam a morte do prelado. Um relato na primeira pessoa, sem pretensões históricas, que faz reviver a memória de um pastor cujos apelos à fé, ao amor ao próximo, à paz e ao apego à terra natal continuam a ecoar trinta anos depois.

Me Jean Mutabesha

Faço um breve testemunho sobre D. Christophe Munzihirwa, a pedido da minha filha Roxane Nn’Ihwe. É que, sempre que falo do espírito de Munzihirwa, os meus filhos perguntam-me se realmente o vi e o que retive dele enquanto ainda era vivo. É, pois, por dever paternal, aliado ao dever cristão e cívico, que escrevo estas poucas linhas, às vésperas dos trinta anos do seu assassinato, em circunstâncias de extrema violência. Entretanto, o tempo passou, a história parece repetir-se e dar lugar a uma reformulação de violências de toda a espécie. Estas poucas linhas são um testemunho em bruto dos acontecimentos tal como foram vividos e do encontro com D. Munzihirwa no tempo que foi o nosso.

D. Munzihirwa, um homem de fé

O meu primeiro encontro com D. Munzihirwa teve lugar em meados de 1996 (entre julho e agosto), por ocasião da celebração de uma missa de ordenação sacerdotal no adro da Catedral de Nossa Senhora da Paz, em Bukavu. Fiquei particularmente impressionado com o seu estilo de celebração eucarística, marcado por grande fervor e fé. Recordo-me também de que insistiu no facto de o sacramento da Ordem ser um dom de Deus para a Igreja e uma graça que Ele concede àqueles que chama para O servir.

O meu segundo encontro aconteceria algumas semanas mais tarde, perto do fim das férias e a poucos dias do regresso às aulas. Vinha de Muhumba, onde tinha estado em casa de um amigo e colega de turma[1], e, perto da oficina de carpintaria do Colégio Alfajiri, eu e um amigo cruzámo-nos com um homem idoso. Estava vestido com muita simplicidade, era muito calmo e caminhava a passos muito curtos. Dois elementos da Guarda Republicana aproximaram-se dele e saudaram-no em suaíli: «Jambo Mzee[2]». Sem medo, respondeu-lhes: «Si muna ni ita Mzee saa hii, lakini saa mutafika pale mbele muta anza nyanyasa watu [3]». Não o tínhamos reconhecido. Mas, influenciados pela propaganda mobutista e pelo receio que a Guarda Civil inspirava, olhámo-nos e dissemos: «Uyu mzee ana cheza na Mobutu kweli. Akose hajuwe ba GACI[4] muzuri[5]». Guardei este episódio muito ciosamente porque, para mim, era a primeira vez que via uma pessoa, e ainda por cima um homem idoso, desafiar a Guarda Civil cara a cara. Continuámos a comentar aquilo que, aos nossos olhos, era um incidente grave.

O meu terceiro encontro teve lugar num domingo do mês de setembro, na capela do convento das Irmãs Missionárias de Nossa Senhora de África, em Kadutu. Perto do final da missa, antes da bênção final, vi aparecer, por uma porta ao lado do altar, o mesmo homem idoso que tinha visto algumas semanas antes, junto às oficinas de carpintaria do Colégio Alfajiri. Quando se aproximou do ambão, pensei para comigo que aquele homem devia ser alguém de posição muito elevada, tendo em conta a atenção e o respeito que a sua presença suscitava.

Dirigiu-se a nós, os jovens (eu tinha 16 anos). Interpelou-nos sobre o nosso dever de amar o nosso país, de permanecermos ligados às nossas terras e de amarmos o próximo, fosse ele quem fosse e quaisquer que fossem as suas origens. Perto do final da sua intervenção, insistiu no facto de que o vento que iria soprar sobre a nossa região seria muito forte e causaria enormes estragos, em todos os planos. Mas, fosse qual fosse a força desse vento, não deveríamos abandonar as nossas casas, trair o nosso país nem deixar de amar o próximo. A sua mensagem daquele dia foi transmitida em quatro línguas: francês, suaíli, mashi e quiniaruanda. Foi nesse momento que percebi que tinha encontrado um grande homem. Pensei para comigo: que erudição! Que profundidade! À saída da missa, perguntei ao meu amigo[6] quem era aquele homem. Foi então que me disse que se tratava de D. Munzihirwa. Fiquei maravilhado com a grandeza daquele homem, a sua simplicidade e a sua calma.

O meu último encontro teve lugar no Domingo das Missões do mesmo ano e no mesmo local, na capela do convento das «Irmãs Brancas». Mais uma vez, não era o celebrante e apareceu apenas no final da celebração eucarística. A sua mensagem daquele dia tinha como tema o acolhimento dos refugiados, o amor à pátria e ao próximo, bem como a figura da Virgem Maria. Voltou a insistir na necessidade de não abandonarmos as nossas casas e as nossas terras, fosse qual fosse o vento que viesse a soprar e qualquer que fosse a má notícia que pudéssemos receber, porque a história da humanidade continha lições de povos que tinham abandonado as suas terras e nunca mais as tinham recuperado, tornando-se, assim, povos errantes.

D. Christophe Munzihirwa, uma testemunha da esperança

Comecei a acompanhar regularmente as mensagens de D. Munzihirwa, difundidas pela Rádio Maendeleo, nas quais apelava ao amor, à paz, ao sentido de responsabilidade e ao respeito pela diversidade como riqueza de uma nação, sem me aperceber de que se tratava dos últimos momentos do regime de Mobutu e do início de um ciclo de violência que iria durar três décadas.

No dia 28 de outubro de 1996, ao regressarmos das aulas — estudávamos no Instituto Kitumaini (Colégio São Paulo) e, nesse dia, tínhamos de chegar a pé a Bukavu, por falta de meios de transporte —, cruzámo-nos com longas colunas de pessoas, famílias e militares que abandonavam Bukavu em direção a Kavumu. Importa referir que a escola nos tinha dispensado por volta do meio-dia, na sequência do bombardeamento do campo de refugiados situado na colina de Hongo, abaixo do Instituto Kitumaini (Colégio São Paulo). Quando chegámos, com dificuldade, à Brasserie, começámos a falar de D. Munzihirwa, da sua coragem, das suas mensagens de amor e de paz e dos seus apelos a nunca abandonarmos as nossas casas, tal era o caos indescritível que se desenrolava diante dos nossos olhos. E, quanto mais avançávamos, mais a fila de pessoas se dispersava. Quando chegámos à Praça do 24 de Novembro, ficámos estupefactos com o vazio. Pela primeira vez, a Praça do 24 estava completamente deserta. Foi nesse instante que tomámos consciência da situação que se estava a instalar. O nosso grupo de alunos dividiu-se em dois: uns seguiram pela estrada que leva à Prisão Central de Bukavu, enquanto nós (três) tomámos o caminho do Liceu Wima, em direção a Cimpunda, onde residíamos. Ouviam-se disparos de armas pesadas vindos de Bugabo, em direção à igreja CBCA. Tomados pelo pânico, combinámos não ir à escola na terça-feira, 29 de outubro.

Quando chegámos a Cimpunda, encontrámos o bairro bastante movimentado. Havia controlos de identidade em alguns pontos, mercados improvisados à beira da estrada, novas famílias vindas da «cidade»… Um mundo novo.

A terça-feira, 29 de outubro de 1996, foi muito agitada. Ouviam-se disparos de armas pesadas e ligeiras por toda a parte, no centro da cidade e na direção do bairro Essence. Afluíam cada vez mais famílias; umas ficavam acolhidas em casas de familiares ou conhecidos, enquanto outras prosseguiam em direção a Ciriri e ao bairro Camp TV. Por volta das 16 horas, chegou a notícia da morte de D. Munzihirwa. Foi como uma bomba. Vi os meus pais agitarem-se. Disseram-nos para reunirmos rapidamente o necessário para irmos abrigar-nos em Kabare, pois, diziam eles, «se acabaram de matar D. Munzihirwa, não pouparão ninguém». Foi precisamente nesse momento que ganhei coragem para recordar aos meus pais os ensinamentos de D. Munzihirwa: amar o próximo, amar o país, amar a Deus. E, fosse qual fosse o vento que viesse a soprar, fosse qual fosse a má notícia que recebêssemos, nunca abandonar as nossas casas nem as nossas terras, nunca perder a fé e a esperança, porque, mesmo no meio do caos, Deus faz florescer maravilhas.

M.ᵉ Jean Mutabesha

Kashusha, 28 de outubro de 2026


[1] Trata-se de Rodriguez BIRAHEKA, atualmente magistrado em Kinshasa. Talvez também se recorde desta cena. Havia ainda outros transeuntes que utilizavam este atalho entre o mercado de Nguba e a Praça Mulamba.

[2] Literalmente, Olá, velho. Só mais tarde viria a compreender o verdadeiro significado de Mzee: o Sábio.

[3] Chamam-me Mzee, mas, algumas centenas de metros mais à frente, vão extorquir dinheiro e maltratar pessoas.

[4] Abreviatura de Guarda Civil. Era assim que designávamos, de forma depreciativa, os elementos desta unidade que encarnava o horror e o terror do regime de Mobutu.

[5] Este velho está mesmo a brincar com Mobutu. Talvez não conheça bem a Guarda Civil.

[6] Trata-se de Guillaume Kalumuna, que se tornou sacerdote na congregação dos Padres Carmelitas Descalços.

Abonnez-vous à notre Newsletter pour recevoir les dernières infos.

Autres nouveuvelles
Testemunho: D. Christophe Munzihirwa, um homem de fé e uma testemunha da esperança

Testemunho: D. Christophe Munzihirwa, um homem de fé e uma testemunha da esperança

Témoignage : Mgr Christophe Munzihirwa, un homme de foi et un témoin de l’espérance

Témoignage : Mgr Christophe Munzihirwa, un homme de foi et un témoin de l’espérance

Bukavu: Colégio Alfajiri evoca a memória de D. Christophe Munzihirwa, SJ

Bukavu: Colégio Alfajiri evoca a memória de D. Christophe Munzihirwa, SJ

Bukavu : Le Collège Alfajiri fait mémoire de Mgr Christophe Munzihirwa, SJ

Bukavu : Le Collège Alfajiri fait mémoire de Mgr Christophe Munzihirwa, SJ

Formar hoje os Jesuítas de amanhã

Formar hoje os Jesuítas de amanhã

PROVINCE JÉSUITE d'AFRIQUE CENTRALE

Nous sommes au service de la mission du Christ en République démocratique du Congo et en Angola.

Abonnez-vous à notre Newsletter pour recevoir les dernières infos.

© 2025 – Province Jésuite d’Afrique centrale(ACE)

Tous droits réservés